terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Quem quer viver eternamente!?...



Morte


Ah se a falta de benevolência não nos inundasse
A alma de um mundo incoerente
Ah se a privação nos conduzisse ao fortalecimento do espírito
E a carência nos submergisse de dignidade
Já o óbito teria outro sentido num cérebro desinquieto
A defunção transformar-se-ia em renascimento
O lado negro em luz
O gelo em fogo
O passamento seria uma viagem serena para a eternidade
O aniquilamento uma jornada em direcção ao infinito
Abolição seria sinónimo de vida e não de anulação
O cessar não entraria na história humana como extinção
Falecimento seria apenas voar ao sabor do vento!
A severa liquidação não significaria acabamento
E as cumplicidades seriam perenes
E os quereres não teriam nome
E os sentires seriam indizíveis
E nunca obliteraríamos as amizades
Nunca suprimiríamos os abraços
Porque as carícias não acabariam
Não existiriam desfechos
Nem conclusões opinadas em forma de inquisição
Os capítulos de um livro ficariam sempre por encerrar
Um poema não teria termo
Não embarcaríamos na barcaça do decesso
Flutuaríamos apenas em redor das estrelas
Ou enleados nos calor dos nossos corpos
Saudade não apareceria no dicionário
Porque o nosso ânimo dançaria ao ritmo da afeição
E o amor não teria fim
Mas por certo engano-me na sorte
Será ilusão o amor
Tal como a própria morte?...

Pó ao vento...é o que todos nós somos...

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Plenitude


Procuro-te nos passos que dou pela praia imensa
Para lá das ondas que me agitam a alma
Nas lágrimas teimosas que do meu fogo caem
Na tarde serena de chuva calma
Procuro-te no misterioso nevoeiro cerrado
Na espuma branca da água salgada
Na agitação das vagas que me alagam os pés
Na torrente de desejo desenfreada
Procuro-te por entre os meus dedos
Na fortaleza singela do meu abraço em segredo
Em cada interstício do meu corpo
No tormento atroz do meu inevitável degredo
Procuro-te insaciável nas estrelas
Na lua hipnótica que me fascina desgovernada
Na tempestade que inunda os caminhos
No palco de vida frenética inventada
Procuro-te em aconchego no meu seio
E morrerei com um grito sufocado na boca cerrada
Estigma da escrita transfigurada vicissitude
Procuro-te mas não te encontro!
Num campo verde confiança em quietude
Num céu de nuvens brancas de pureza
Minha irmã apartada beatitude
Procuro-te mas não te sinto!
Amiga companheira e glacial plenitude!

domingo, 4 de Outubro de 2009

Almas gémeas feridas



- Estas melhor amor?
Porque sofres?
- Não devemos fingir que não sofremos
Levei a minha vida inteira a lutar por aquilo que queria...
E de repente tenho de decidir uma série de coisas
Que me anulam no mais íntimo de mim
- Sabes de mim como mais ninguém sabe
E sabes porque?!
Somos a mesma alma dividida em dois corpos
Tenho-te como a minha melhor amiga
Carrego em mim o fardo de uma dor que parece de séculos
A minha primeira batalha é comigo próprio
Choro... apetece-me
- Choro contigo neste momento...
- Gostava de estar contigo
Quero ter o dia em que nos abracemos
Para rir-mos e chorarmos juntos
- Já te abracei lembras-te?! Já uma vez chorei contigo...
Talvez as nossas lágrimas se juntassem
Depois secassem ao mesmo tempo
Se eu estivesse aí não tenhas dúvidas que te abraçava
É como se fossemos condenados a suportar sozinhos uma batalha enorme
- Sim....são as lutas mais intensas e difíceis
- A luta interior é como se espetássemos uma lança em nós mesmos
Tenho momentos em que penso na morte como um alívio para esta loucura toda de vida…
- Nunca vi a morte como uma inimiga
Já a senti... já a vi
Um dia vou abraçá-la e acho que só vou descansar mesmo e acabar com este sufoco, quando ela me visitar
- Interessante pedir ajuda à morte...
Parece que só ela tem o poder de apaziguar o nosso sofrimento
Tu entendes porque também tens momentos em que a vida te parece não ter sentido...
- As pessoas que me rodeiam falam para mim, mas não me conhecem
Ninguém sabe ver o que está por detrás do meu sorriso
Ninguém vê
Ninguém sabe quem sou
Ninguém entende
- Sentimos de forma igual…nós dois
Os outros? É como se vivêssemos entre seres que falam outra língua
Sentem de outra forma...são estranhos...


(Quando a poesia acontece na real e genuína crueza da vida e é escrita simultaneamente a quatro mãos)

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Humilhação




Há momentos em que o cerrar de olhos
É o sentir de uma dor no coração desfigurando o rosto
Um aperto cruel na ausência de calor humano
O cansaço que anuncia a navalha afiada do desgosto
Um gesto obrigatório de altear a fronte
Explodindo no refalsamento um renascer intemporal
Hierarquia de valores num recobro de teimosia
Paradigma dum ressurgir vulcânico consumado dignidade
Porque o combate também é pelejado por quem silencia!

Algemas pesadas num estatelar moroso e aflito
Padrão de sorrisos em lágrimas que deslizam sob a pele
Qual rio subterrâneo que molda o ventre da Terra
Estigma de sulcos agonizantes na garganta do tempo
Onde a voz límpida dá lugar à rouquidão
Por ausências que ferem o alento
Por estrias gravadas com sabor a sofrimento!

Porque há sentires que se guardam unicamente na alma
E não têm objectiva e concreta tradução
Em nenhuma linguagem e código humano
Por aviltamento e censura à comunicação
Mas por milagre e imperiosa vontade
Eis que a tenebrosa humilhação
Solta um bramido desesperado de agonia
Transfigurado em louvor de redenção
E mesmo na batalha perdida há um clamor de alívio
Como se dos grilhões que nos amarram
Ressuscitássemos feridos mas em estado de libertação!

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

Escrito na alma


Leio-te as palavras
Absorvo as frases que constróis
Justificando o teu silêncio perante o que sou
A tua ausência, nos caminhos por onde vou
E não entendo a razão por que me dou
Abrindo a minha alma ao sonho
Quando sei que haverá sempre um tempo de partida
Um caminho de não retorno

Construímos tão pouco!
Fizemos histórias erigidas em nuvens
Que se esfumam sem piedade
Abandonámos perdido na areia da praia
Um beijo feito de ternuras e entregas
No selar dos lábios voámos para outra dimensão
E contigo no centro, desenhei na areia
Em euforia um coração

Ingenuidade a minha
Pensar que esta nossa amizade
Duraria para sempre
Esqueci que a vida é cruel
O deserto invade-nos sem um afago
Olvidei que por vezes se mente
E ficamos nas entranhas com sabor amargo

Inocência patética
Acreditar no abrir dos braços à verdade
Desnudar-me perante o teu olhar
Perder-me em meiguices
Emudecer desejos em gestos de criança
E afundar-me finalmente nos teus olhos cúmplices

Estava escrito nas nossas almas
Que nos inventaríamos só por lacónicos momentos
Em rituais intensos e loucos
Reunindo duas vontades numa só
Duas jornadas e um único ponto de encontro
Dois corpos e um singular querer

E agora que faço com este nó na garganta
Este pesar indeclinável
Ao contemplar-te o afastamento cada vez mais
Deixando-te de ver afável
Para sempre errante na distância!
Deus!
Que contenda é esta
E onde se escondeu a coragem?
Estou prostrada num campo de batalha!
Mas…que paz…
É hora de seguir uma nova viagem!